Na história do leitor deste mês Renato conta como foi sua viagem de carro pela Puglia, aquela região que fica no salto da bota. Eu até pensei em apresentar o Renato para vocês, mas ele se apresenta de uma forma tão bacana, que não vou nem tentar!

Com vocês: RENATO ACHUTTI!!!


“Gaúcho, gremista, cortei o cordão umbilical há 33 anos, passei uma temporada em Londres e andei pelos quatro cantos do Velho Continente. Assisti ao torneio de tênis de Wimbledon, aos shows do Queen e do Rolling Stones, trabalhei em colheita de uvas no Vale do Loire, na França, no tempo que a colheita ainda era quase toda manual, fui ajudante de cozinha, barman e washing-up em Londres e alguma coisa mais. Aportei no Rio de Janeiro há 30 anos atrás, aqui conheci a Rosa e lancei minha âncora. Amante dos esportes, encontrei na corrida uma grande terapia, já corri algumas maratonas, a última delas em Paris há 10 anos atrás. Engenheiro e financista, ninguém é perfeito, adoro viajar, explorar os locais, conhecer as pessoas, tudo com muita calma, degustando um bom vinho, uma deliciosa comida, sem esquecer da sobremesa e do café. Tudo isso em ótima companhia, é claro!!! Precisa mais?!”

SLOW TRAVEL

Para mim (e para muitos, imagino) um dos grandes prazeres da vida é viajar, contudo quando leio alguns blogs de turismo e vejo o desespero de alguns em aproveitar as viagens para “conhecer” um zilhão de lugares, fico pensando no que estas pessoas, de fato, estariam buscando. Quando leio que vão ficar “dois dias em Paris” e querem aproveitar para conhecer a Disney, ir a Versailles e dar uma passadinha num outro lugar, fico sem entender que tipo de viagem é essa.

Viajar deveria ser uma oportunidade para se conhecer novas culturas, novas pessoas, novos hábitos, novos comportamentos e se conhecer melhor. Me digam qual é a chance de alguém que vai ficar em Paris dois dias, além de ir a Disney e Versailles, vai ter de vivenciar isso?

O que se percebe é que as pessoas não conseguem desacelerar do seu dia-a-dia normal e continuam agindo nas férias como se estivessem atrasados para ir trabalhar, ir buscar o filho na escola ou para ir ao supermercado antes que feche. Pobres de nós, nos tornamos megalomaníacos, tal qual os grandes imperadores romanos, querendo abraçar tudo e expandir nossas fronteiras em tão pouco tempo!!!

Férias exigem planejamento, mas também exigem desaceleração para que se possa vivenciar as coisas com mais intensidade e menos robotização!!!

Não consigo me permitir a ficar menos do que 4 ou 5 dias em uma cidade, mesmo que já tenha estado lá, e não menos do que uma semana em um lugar que ainda não conheça. É claro que existem lugares pequenos que você passa quando está viajando de carro, mas esses nem conto, porque são apenas paradas estratégicas para recarregar as baterias e dar uma boa espiada nas pessoas do lugar!!!

A desculpa que ouço é sempre a mesma, que vão aproveitar para visitar um número imenso de lugares para depois voltar com mais calma aos lugares que mais gostaram … o que nunca acontece!!! O que muitos não percebem é que este troca-troca de cidades consome tempo, pois entre um checkout (malas, conta do hotel, transporte) e um novo checkin, se gasta, no mínimo, quase meio-dia de um tempo precioso que não volta mais.

Há vários anos venho abandonando as coisas fast da minha vida. A fast-food já foi abandonada há muito tempo e a fast-travel nunca foi das minhas preferidas.

Já fiz viagens de carro insanas, rodando mais de 1.500 km em dez dias, mas com o passar do tempo fui percebendo que eram viagens sem sentido, com muito pouco prazer e muita correria, a ponto de não saber diferenciar um lugar de outro, pois a rigor o que os diferencia não são os pontos turísticos, são os locais especiais que temos a chance de conhecer e as pessoas que encontramos em cada lugar!!!

ROTEIRO PARA A PUGLIA

Bem, como este blog é sobre a Itália vou aproveitar para contar um pouco sobre a viagem que fiz em setembro de 2013 à região da Puglia, no “salto da bota”.

É uma região pouco visitada pelos brasileiros, pois não é tão conhecida como a Toscana, mas também não é tão cara como a Toscana, muito pelo contrário.

Antes de viajar pesquisamos (eu e minha mulher, mais ela do que eu) e fizemos nosso planejamento: iríamos entrar na Puglia por Bari, depois nos movimentaríamos a Sudoeste em direção à ponta do “salto da bota”, próximo à cidade de Otranto. Neste sentido exploraríamos mais o caminho pela costa e depois voltaríamos ao ponto de partida (Bari), privilegiando as estradas interiores.

Nossa estratégia em viagens de carro sempre é a de dividir a área a ser visitada em micro-regiões e dentro dessas, estabelecer alguns lugares aonde vamos ficar hospedados e de onde iremos explorar as áreas num raio de uns 50/70 km.

Como iríamos apanhar o carro alugado em Bari, optamos por fazer a primeira escala em Trani, cidade localizada a cerca de 50 km. Embora localizada à oeste, no sentido oposto ao nosso percurso, havíamos recebido recomendação de visitá-la e achamos que se enquadraria em nosso plano de descompressão lenta, pois buscávamos um lugar tranquilo para nos recuperarmos da maratona de uma viagem de 16 horas (incluindo a conexão em Paris).

Efetivamente Trani era tudo aquilo que buscávamos, um local lindo, charmoso e muito tranquilo. Nosso hotel se localizava defronte à Marina, na parte antiga da cidade, e a vista era sensacional. Embora exista uma parte mais moderna, a parte antiga é o local que vale a pena ser visitado.

Trani

Trani – Vista da Marina defronte ao nosso hotel (Hotel Mare Resort). Ao fundo a Catedral, dedicada a São Nicolas, um dos principais monumentos da cidade.

Que belo início de viagem, foram dias sensacionais de muito passeio a pé, boas massas, bons vinhos, enfim tudo o que se espera das férias!!! Aproveitando a temperatura um pouco alta, frequentamos até uma pequena praia de pedras (sem areia), num clube próximo ao hotel.

Quem aprecia vinhos vai encontrar nessa região o “Primitivo di Manduria”, tinto, feito com a uva Primitivo, que produz vinhos encorpados, levemente frutados e saborosos. Existem também rosés deliciosos, feitos com a uva Negroamaro. Para quem quiser conhecer um pouco mais, basta clicar aqui.

Nossa próxima base se localizava em Lecce, distante uns 200 km, aonde iríamos ficar durante oito dias e de onde exploraríamos toda a região localizada no extremo da bota.

Em Lecce ficamos na cidade histórica, muito mais interessante, e dela fizemos várias viagens exploratórias a cidades no seu entorno e nos hospedamos no excelente Hotel Risorgimento, localizado no coração do centro histórico. Lecce é uma cidade média encantadora, tem uma vida noturna bastante movimentada e oferece muitos restaurantes e atrações, além de ser a principal cidade da península salentina.

No deslocamento de Trani à Lecce, percebemos que as viagens por estradas costeiras, nosso plano original, apesar de serem infinitamente mais interessantes e agradáveis, nos forçariam a encarar o trânsito local, redundando em muitas paradas, cruzamentos e sinais, o que nos fez optar por estradas alternativas onde o trânsito fluísse melhor.

Em Lecce, alternamos dias de passeios locais com dias de passeios a lugares no seu entorno.

Numa dessas escapadas fomos a Otranto, uma cidade costeira localizada no Mar Adriático, a cerca de uns 50 km, com uma água límpida, transparente, onde passamos o dia. Foi ótimo!!!

Otranto

Otranto

Para quem não conhece, na Itália, assim como na França e em outros lugares da Europa e dos Estados Unidos, existe a praia pública e as praias privadas, normalmente exploradas por clubes, onde o acesso se dá mediante o pagamento de uma taxa. A vantagem das praias privadas é a infraestrutura oferecida, com banheiros, chuveiros, bar e também cadeiras e guarda-sóis. As taxas podem variar bastante, dependendo do nível da infraestrutura e da época do ano, mas normalmente oscilam de 20 a 50 euros. As praias públicas também são boas, embora não ofereceram nenhum tipo de mordomia opcional.

Um outro lugar que adoramos e recomendamos a visita é Gallipoli, distante uns 40 km de Lecce, saindo da costa do Mar Adriático para o Mar Jônico. Esta cidade é realmente uma pérola e merece a visita de quem estiver na região. É até difícil descrevê-la, pois tem também, como uma grande parte das cidades italianas, a parte antiga, histórica, preservada, construída em forma de uma fortaleza, isolada do resto da cidade por muros altos e poucas entradas. Neste caso existe somente uma ponte de entrada, construída no século XVI, que a liga ao resto da cidade. Este tipo de construção era muito comum nos séculos passados para proteger a cidade da invasão dos inimigos. No século XVIII seu porto era considerado o maior mercado de óleo de oliva do Mediterrâneo.

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Gallipoli – cidade antiga

Prosseguindo a viagem iniciamos o caminho de volta, mudando nossa base para Ostuni, a cerca de 70 km de Lecce. É uma cidade menor e com uma influência cultural e estética marcadamente influenciada pelos gregos. Desta vez ficamos localizados na cidade nova, dado que o acesso à cidade antiga era restrito para veículos e possuía ladeiras que poderiam dificultar nossa movimentação. A vista da cidade antiga era de tirar o fôlego, percebemos no dia da nossa chegada, quando o sol já começava se a se por. Desfrute e sonhe!!!

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Ostuni

Ostuni possui excelentes restaurantes. Para quem aprecia uma boa comida existem vários restaurantes classificados com uma estrela Michelin, onde se pode comer a preços razoáveis. Acho que vale a pena investir em pelo menos uma refeição dessas e fazer uma viagem no tempo. Fomos a dois restaurantes destes que recomendo: Osteria del Tempo Perso e Osteria Piazzetta Cattedrale. O interior do primeiro é encravado na rocha, é realmente uma viagem no tempo, não só pela comida, mas também por ela.

Ostuni

Ostuni – cidade antiga

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Ostuni – Ristorante del Tempo Perso

Os passeios pelas ruelas da cidade antiga são igualmente uma viagem no tempo.

De nossas andanças pelas redondezas dois lugares se destacaram pela beleza e originalidade. Em primeiro lugar, Alberobello, conhecida pelos seus famosos trulli, construções de telhado cônico características da região.

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Alberobello

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Trulli di Alberobello

O outro local mágico foi Polignano a Mare, incrustada no Mar Adriático, pelo seu complexo rochoso e suas grotas marítimas de beleza estonteante. Em uma dessas grotas existe um restaurante incrustado muito interessante.

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Polignano a Mare

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Polignano a mare

Bem, acho que já me estendi demais, é que viajar pela Itália é um “prato cheio” para quem tem “fome” de conhecer novos lugares, novos hábitos, novas culturas, novas comidas, que a gente acaba se perdendo e viajando na viagem!!!

Se bem que com a slow-travel” você tem tempo de se perder e de se reencontrar com mais facilidade mais adiante!!!

Espero que tenham gostado, e com licença que meu cappuccino está esfriando!!!

Arrivederci!!!!!


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Sobre o autor

Ana Grassi é especialista em língua, cultura e turismo para a Itália. Fundadora, autora e editora do blog ITALIAna, trabalha como travel designer há 10 anos; isso quer dizer que realiza o sonho dos viajantes que querem conhecer a Itália, com um roteiro personalizado e exclusivo!

6 Comentários

  1. Maria Luzia Martinez (Lu Martinez) on

    Amei o texto de Renato Atucchi!
    Vamos em 2 casais para a Puglia em junho e aproveitarei muito as dicas!
    Também vamos para o Lago de Garda! Aguma dica?
    Muito bonito seu blog Ana!
    Obrigada,

    Lu Martinez

  2. caroline fernandes on

    Pelo visto o clima em setembro estava bom, certo? Vou em setembro também e gostaria de dicas.

  3. Estaremos na Puglia de 17 a 28 de setembro , é um tempo muito longo ? seria interessante depois de percorrer o ” salto ” subir até Gargano e devolver o carro em L’Aquila ? Se puder dar um feedback ….

  4. Ola , Estarei na Puglia em Maio , alguma dica do clima . Aproveitei todas as suas sugestoes .
    ficarei em Otranto 4 dias e Monopoli 4 dias e um em Matera , algo interessnate para indicar ?

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