Eu adoro viajar sozinha. HOJE. Confesso que não foi sempre assim.

A primeira vez que me vi sozinha num aeroporto gigante de um país cuja língua eu desconhecia, fiquei – na melhor das hipóteses – desesperada. Tudo bem que não facilitei: escolhi a Alemanha após a queda do muro de Berlim. Pouco turismo e russo como segunda língua.

Acontece que após alguns dias fui pela primeira vez para a Itália e o desconforto permaneceu. Lembro que, às vezes, o nó que tinha na garganta não permitia que eu engolisse o espaguete e muitas vezes eu chorei escondido também.

Acontece que tudo isso passou e … olhem pra mim hoje: sou uma travel blogger! Isto significa que: se eu consegui, você também consegue!

E para provar o que digo, duas leitoras queridas: a Juliana Sícoli e a Nazaré Moreira, contam como superaram o medo e a insegurança de viajar sozinha.


“Eu sou apaixonada por Roma e pela Itália! Parece que tudo lá me atrai… a gastronomia, o charme das cidadezinhas, as ruelas estreitas, os becos, os vinhos, os gelatos, as pizzas, as fontes, a ousadia dos italianos, a elegância, os ternos, o cheiro de história, a cultura, o direito, o futebol, os carros, as lambretas, as pontes, as igrejas… o amor! É tanta coisa que gosto de lá que passaria dias aqui escrevendo.

Sou advogada, mestranda em direito do trabalho e fui à Roma fazer um curso de direito comparado (Italiano-brasileiro) na Universidade de Roma Tor Vergata. Já havia estado em Roma outras vezes a passeio, todas as vezes quando voltava alguém perguntava se eu tinha visto o Papa e achavam um absurdo eu não ter visto! Dessa vez foi diferente… estava louca para ver o Papa Francisco e determinada a fazer isso a todo custo!

Já tinha a informação que ele todas às quartas-feiras passeia com Papa móvel na Piazza di San Pietro e que aos domingos ele dá uma benção da janela da Basílica. Estava tão determinada que insistentemente pedia as minhas amigas que estavam no curso comigo, para que me acompanhassem, já que meu italiano não é muito bom e o campus fica afastado da cidade. Para ficar mais emocionante, nenhuma delas estava disposta a “matar aula” e se meter nessa aventura.

Então decidi ir sozinha e lá fui eu…totalmente perdida. Pedi informação na recepção do campus, peguei um táxi e fui até o metrô. Lá chegando não sabia nem como pedir bilhete para comprar e muito menos como mexer naquelas maquininhas ultramodernas. Que desespero! Depois de ficar alguns minutos tentando mexer naquela gigantesca máquina, se aproximou uma senhora, que obviamente já deveria estar me observando e percebeu minha falta de experiência com os transportes romanos, e se ofereceu para me ajudar.

Pois bem… ela comprou meu bilhete! Acontece que quando sai com o meu bilhete na mão fui para saída errada, a senhorinha, pasmem, foi atrás e perguntou de onde eu era e para onde eu estava indo. Ela por coincidência ia para o mesmo sentido só que iria descer duas estações antes e sugeriu que  fossemos juntas! Nem preciso dizer que me senti totalmente segura ao lado dela! Tentamos conversar no vagão do metrô, ela em italiano e eu em português, eu dizia a cada duas ou três palavras que ela falava…“piano piano”! A mímica foi melhor opção! E de repente… chegou a hora dela descer na estação,  confesso, fiquei desesperada! Queria segurá-la a força e gostaria que ela fosse comigo ou melhor, que ficasse até eu encontrar com as minhas amigas mais  tarde na Corte di Cassazione! Mas ela não fez isso… se despediu, sorriu e me desejou boa sorte!

Um pânico momentâneo tomou conta do meu corpo, fiquei com medo de descer no lugar errado ou pior que não chegar a tempo até a praça para ver o Papa! Eu estava tão focada que nem percebi que naquele vagão tinham outros turistas que estavam na mesma situação que eu, desesperados para chegar ao Vaticano!

Ao chegar à minha estação fiquei admirada ao ver tudo bem sinalizado e todos indo no mesmo sentido, estava tão claro que estavam todos indo para lá, que poderia me jogar em cima dele que eles me carregariam! Eram duas quadras do metrô à Praça, não tinha erro, então me soltei… fui andando tranquilamente no meio daquelas pessoas de todas as partes do mundo! Os brasileiros e os italianos me identificaram rapidamente como brasileira rolando toda aquela afinidade e brincadeiras como se fossemos amigos de infância!

Estava confortável com eles, mas o relógio estava correndo e eu fui lá para ver o Papa, esse era meu objetivo! Comecei a andar mais rápido e fui me distanciando deles. A cada passo parecia que o número de pessoas naquela praça triplicava, era muita gente! E muitos vendedores de souvenir à água, uma mistura de fé e comércio!

Finalmente cheguei à Praça e quando vi aquela multidão por alguns minutos cheguei a pensar que seria impossível ver o Papa ou sequer escutar a benção, foi quando me lembrei das minhas épocas de adolescente no show do meu astro predileto… e valeu à pena!

Aquela sensação e aquele  entusiasmo foram me dando coragem para ir me enfiando cada vez mais no meio das pessoas, até achar uma localização excelente! Perto das gradinhas, até onde é permitido chegar e bem pertinho de um telão! E lá estava ele, desfilando com toda a sua simpatia, o seu carisma, acenando calmante a todos… com toda aquela paz! Foi meia hora naquela energia, no meio daquelas pessoas de todas as partes do mundo, ao som das criancinhas gritando “Francesco,Francesco”!

Por esses minutos não existia mais nada, além da harmonia, as pessoas rezavam, se abraçavam, sorriam, era tudo muito lindo! Nem o forte sol e tempo seco incomodavam… arregacei as calças, dobrei as mangas da camisa, reabasteci o protetor solar, me hidratei com água e me entreguei a multidão! Cantei, rezei e chorei com eles, foi emocionante!

Eu sozinha e ao mesmo tempo totalmente amparada!

Talvez um dos dias em que mais me fortaleci e que percebi como a vida pode ser bem mais simples ao lado de pessoas tão diferente, se você tem esperança e amor no seu coração!

Essa foi a experiência mais marcante que vivi em Roma!”

JULIANA SÍCOLI


“Tudo vale a pena se a alma não é pequena.” – Fernando Pessoa.

É assim que avalio minhas experiências solitárias.

Ir em busca de um desejo, um sonho ou  de algo que não tem uma intenção definida. Neste propósito, como encontrar alguém para partilhar o que você ainda irá descobrir?

Viajar só é para quem aprendeu a gostar de sua própria companhia.

Viajei muito em excursões até descobrir o prazer de montar meus próprios roteiros, ler blogs até me tornar uma auto viajante, onde não existem regras pré estabelecidas, somente, as planejadas por você, com possibilidades de mudanças a qualquer hora.

A sensação de você ser responsável por si mesmo é o fantástico da viagem, pois você começa a perceber coisas nunca antes vistas ou pensadas.

A maior descoberta que fiz e, compartilho com você, leitor, é que viajar sozinha é ter a oportunidade de voltar ao útero materno, onde estamos sós e envoltos em um cordão e líquido, sendo estes nossos produtos de sobrevivência.

Assim, uma vez abrigados, ficamos livres para desfrutarmos do nosso mundo interior, com todos a nos proteger de uma maneira mais que especial. De uma forma silenciosa interagimos com as pessoas que não conhecemos e com um mundo que ainda iremos descobrir.”

NAZARÉ MOREIRA

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– Romance, estudo, amizade, tudo isso e muito mais Filomena encontrou em Roma!

A experiência de Ana Renata com criança na Itália

* Se você também tem uma experiência na Itália e quer conta-la aqui, participe da nossa seção “A VIAGEM DO LEITOR”: uma vez por mês, uma história será publicada e a próxima pode ser a sua! Mande um email para ana@italiana.blog.br

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Sobre o autor

Ana Grassi é especialista em língua, cultura e turismo para a Itália. Fundadora, autora e editora do blog ITALIAna, trabalha como travel designer há 10 anos; isso quer dizer que realiza o sonho dos viajantes que querem conhecer a Itália, com um roteiro personalizado e exclusivo!

5 Comentários

  1. Silvana Domingues on

    Bom ler essas histórias, estou me preparando para ir para Florença em abril, pretendo ficar 2 meses, é bom saber que a ansiedade, o medo de se comunicar e as dificuldades no meio do caminho fazem parte da viagem. Que sabe também não vou compartilhar minha experiência.

    • Ana Grassi on

      Silvana, é isso mesmo…a ansiedade faz parte. Adoraria se voltasse para nos contar de sua experiência. Posso esperar?
      Baci,
      Ana

  2. Sandra Leite on

    Ola! Gostei muito dessa aventura. Ja viajei sozinha mas nunca para fora do Brasil. Meu sonho é viajar para a Itália. Mas não tenho coragem. Lendo essas historias me encoraja um pouco. Quem sabe eu consiga deixar esse medo e viajo para realizar este meu grande sonho. Bjos.

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