Ano passado avistei o bairro Coppedè pela janelinha do ônibus e fiquei estarrecida! Desci do ônibus para ver de perto aquilo. Aquelas casas e edifícios eram tão complexas e ricas de detalhes e mistérios que não me senti suficientemente preparada para entender tudo aquilo e nem tinha muito tempo disponível também. Fiz algumas fotos, que ficaram horrendas e não faziam jus à beleza do lugar e fui embora prometendo voltar.

Como geralmente cumpro minhas promessas, voltei em outubro e me hospedei por duas semanas no bairro. Queria tempo para ver toda aquela arquitetura de perto e me familiarizar com a fantasiosa genialidade do arquiteto que o projetou.

E para trazer a vocês um retrato fiel do que existe por ali, levei comigo meu fiel escudeiro e super talentoso fotógrafo do blog, Victor Carnevale, para arrasar nas fotos!

Luigi “Gino” Coppedè

Gino Coppedè foi um daqueles artistas completos, uma daquelas almas renascentistas que sabe fazer de tudo e bem feito. Além de arquiteto foi escultor, decorador e professor.

Ficou famoso após construir o Castello Mackenzie em Genova. E logo depois foi contratado para projetar um complexo de casas para a alta burguesia romana.

Em sua homenagem, o pedaço do bairro Trieste onde estão construídas estas casas foi batizado com seu nome.

Coppedè

O bairro

Projetado e construído nos anos do fascismo, seu projeto arquitetônico era exatamente o oposto do racionalismo italiano (uma arquitetura fria e monumental com linhas retas e duras).

O bairro começou a ser construído em 1916 e terminada por Paolo Emilio André somente alguns anos após a morte de Gino Copeddè (1927).

Nas quase 50 construções que projetou, entre casas, edifícios e vilas, o impacto da decoração arquitetônica é causado pela mistura (quase lambança mesmo) dos estilos utilizados. Possuía uma certa quedinha pelo art noveau, mas não pensava duas vezes antes de incorporar ao projeto  elementos do art deco, da arte gótica, barroca e até pitadas medievais.

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Por isso deve ter gostado quando pediram para ele dar uma “cara de Roma” ao projeto. Obediente, utilizou a matéria prima principal das construções de Roma Antiga, o mármore travertino. Além disso, fez uma entrada em arco para o bairro (em alusão aos arcos do triunfo da Roma Imperial) e separou as zonas das casas segundo o critério de divisão das casas dos patrícios romanos: ambientes sociais onde recebiam os convidados e ambientes sagrados dedicados exclusivamente ao convívio íntimo familiar.

Não foi só isso. Símbolos místicos foram incorporados e ,muitas vezes, “escondidos” nas fachadas. E descobrir cada um deles é muito divertido!

Aqui está a listinha para você ir descobrindo cada um destes símbolos pelo caminho

Entrando pelo portal da Via Tagliamento (você não está em Nárnia… talvez precise repetir isso algumas vezes), vai se deparar com a Fontana delle Rane, na Piazza Mincio e é este o ponto de partida para começar a exploração do bairro, já que a maioria das construções ficam nos arredores desta praça.

Tanto a Piazza Mincio quanto os arredores são constantemente movimentados, já que muitos dos edifícios do bairro foram transformados em escritórios e embaixadas. O passeio noturno também vale a pena, as poucas luzes amareladas dão um ar de mistério-romântico ao complexo. Não raramente eu encontrava casais passeando de mãos dadas por ali.

Principais construções

Palazzo degli Ambasciatori

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Um arco de onde pende um enorme lustre de ferro batido e que liga dois edifícios é a entrada para o mundo fantástico de Gino Coppedè. Procure o nicho com a imagem de Nossa Senhora, colocada ali para proteger as casas. Junto com ela baixos relevos de deuses pagãos  e uma inacreditável quantidade de elementos arquitetônicos colocados em modo assimétrico.

Via Tagliamento 8-12, via Brenta 2-2a, piazza Mincio 1, via Dora 1-2, via Tanaro 5

Piazza Mincio e Fontana delle Rane (1924)

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A praça Mincio é completamente tomada pela Fontana delle Rane, que é muito parecida com a Fonte delle Tartarughe (Piazza Mattei), também em Roma.

Ficou mundialmente conhecida quando os integrantes dos Beatles entraram vestidos nela depois de um concerto em uma famosa casa de show que existe ali perto: a Piper.

Villino delle Fate

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Em uma das esquinas da Piazza Mincio você vai encontrar o Villino delle Fate, a construção que eu mais gostei e que ganho tantos clicks do Victor que eu resolvi fazer uma galeria com todas!

Em uma das laterais da construção existe uma homenagem à Florença, com as figuras de Dante Alighieri e Petrarca. Do outro lado uma homenagem à Veneza, com o desenho de um leão alado de San Marco. E ainda teve lugar para representar a lenda da fundação de Roma, com Rômulo e Remo sendo amamentados pela loba.

Aqui ele caprichou no uso dos materiais construtivos. Você vai encontrar mármore, azulejo, vidro, madeira, cerâmica e ferro batido: tudo junto e misturado. E é exatamente isso que traz o encantamento e o ar de conto de fadas para a vila.

Outras construções importantes:

– Palazzo del Ragno -Piazza Mincio, 2

– Edifício da via Olona 2, 7 e 11

– Villino di Via Ombrone, 7, 8 e 11

– Villino da via Brenta 26

Curiosidades

  • o interior das casas também foi decorado segundo projeto de Gino: maiólica esmaltada na cozinha, mosaicos para as salas e mosaicos no estilo de Pompeia para os banheiros;
  • em 1921, Gino projetou o castello Villa La Gaeta, no Lago di Como, que foi locação da última cena do filme 007 Cassino Royale.

Como ir

O bairro fica muito perto do centro histórico de Roma, entre a Via Tagliamento e a Piazza Buenos Aires. Eu testei todos os meios de transporte para chegar lá e o meio mais rápido e que aconselho é:

– metrô até estação Policlinico;

– no Viale Regina Margherita pegue o tram 3 ou 9 e desça na Piazza Buenos Aires;

– descendo do bonde pegue a sua direita e chegará no Portal de entrada do bairro.


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Sobre o autor

Ana Grassi é especialista em língua, cultura e turismo para a Itália. Fundadora, autora e editora do blog ITALIAna, trabalha como travel designer há 10 anos; isso quer dizer que realiza o sonho dos viajantes que querem conhecer a Itália, com um roteiro personalizado e exclusivo!

18 Comentários

  1. Lena Reis on

    Ana, que post delicioso! Ao juntar História, Arquitetura e essas fantásticas imagens, você conseguiu fazer um post “tira-gosto” que dá na gente a vontade de ter a refeição inteira, coisa que a gente consegue passeando sem pressa pelo seu blog, e depois pegando um avião e conferindo a Itália “in loco”. Primoroso trabalho. Parabéns e um abraço apertado!

    • Ana Grassi on

      Lena! Obrigada pela visita! Sabe que receber elogio seu me enche de orgulho né?
      Baci,
      Ana

  2. Nossa, que bairro lindo! Nem penso em me hospedar em outro lugar agora! hahaha Será que você vai fazer eu viajar pra Itália mais cedo? To achando que sim! rs beijos

    • Ana Grassi on

      Fer, esse bairro é imperdível mesmo! Pena que é tão pouco conhecido…
      Baci,
      Ana

  3. Post maravilhoso, Ana! Me deu uma vontade de voltar à Itália! Depois de Veneza meu cuore bate forte só de pensar! Quem sabe na próxima viagem a Viena eu faça uma visitinha a Roma!rs

    Baci,

    Gina

    • Ana Grassi on

      Que bom que gostou! Sim…a Itália faz o coração bater forte mesmo…
      Baci,
      Ana

  4. Ana, pra quem vai a Roma pela primeira vez, indica que se hóspede nele? Vou sozinha em abril. Bjs

    • Ana Grassi on

      Carol, é um dos meus bairros preferidos e muito bem coligado com o centro com meios de transporte público. Hospedar-se lá ou não vai depender de seu estilo de viagem.
      Baci,
      Ana

  5. Francisco on

    Ana realmente linda e incrível que ele apresente riquezas de detalhes na sua obra. Quando vou a Basílica de Nazaré rezar me sinto como estivesse dentro de uma caixa de joias. É uma pena que os padres tenha desmontados os pubitos da Basílica. O incrível que turistas venha a Belém ficam encantados com a Basílica e nem imaginam que é o mesmo Cooppede de Roma

    • Ana Grassi on

      Francisco, que alegria receber seu comentário! Sim, a Basílica de Nossa Senhora de Nazaré está nos meus planos de viagem… adoraria conhece-la!!!
      Obrigada pela participação.
      Ana

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