História do leitor – A história do leitor deste mês é de Maurício Ribeiro, meu querido leitor cinéfilo que tive o prazer de conhecer pessoalmente no evento São Paulo all’ ITALIAna.

A sua paixão pelo cinema foi o fio condutor de sua viagem por Roma. Neste instigante post ele nos leva para uma viagem diferente para a Roma dos sonhos! A Roma do cinema! Vamos com ele? Ana Grassi


Há muitas Romas em Roma…

A primeira, obviamente, fundada por Rômulo, Remo e Augustus. A cidade das Sete Colinas, concebida pelo leite de uma loba aos pés de um Fórum que surge imperial, fenomenal e extraordinário! Que veio e se foi no tempo, ao custo do pão e circo, de gladiadores e coliseus e, do qual, hoje, só restam as ruínas.

A segunda, idealizada pelo triunfante Papado da Renascença. A cidade das catedrais, que nasceu no circo de Nero, sobre pedra, sobre Pedro. E, dali, ao mundo, o crucifixo espalhado pelo barroco, as cúpulas de Borromini, os anjos de Bernini, e tantos outros, o rococó celestial, angelical, senão a apoteose sistina.

Por fim, a terceira, a poderosa Roma de Mussolini, seu marco cravado em mármore branco, escadas e colunas coríntias, o fogo eterno em honra ao Rei Vittorio Emanuele e cavalos simbolizando a Pátria, a liberdade, a glória e a vitória.

Roma, cidade aberta – La dolce vita

E diante de tantas Romas, o turista ávido de ver tudo, cada templo, cada igreja, cada fontana, se esquecem de uma outra cidade concebida em sonhos e de sonhos escritos em película, pelo tempo, pela visão;  cada fragmento imaginário de um artista imortal, dali vemos, já vimos, ou veremos, afinal, Roma, a Cidade Eterna. ROMA, CIDADE ABERTA.

E nesse subconsciente, milhares e milhares de turistas vão aos pés da Fontana di Trevi, donde outrora Anita Ekberg se banhou em sua A DOCE VIDA, braços estendidos sob a água fria, seu vestido negro encharcado, o cabelo loiro solto, sua voz doce, tão doce, a nos inebriar, “Marceeeelo, come here...”. E sim, nós iremos, porque assim se constrói o cinema. E assim se visita Roma…

Estúdio Cinecittà

Como um sonho…

E tudo, ali, idealizado, pensado e filmado outrora na sua porção mais oriental, no mítico Estúdio Cinecittà, que poucos conhecem (poucos turistas vão na verdade), mas para o cinéfilo, qualquer cinéfilo, é um tesouro!

Porque ali se filmou Elizabeth Taylor soberana em CLEOPATRA (1963); Dali, John Neville partiu num balão, nAS AVENTURAS DO BARÃO DE MÜNCHAUSEN (1988); Dali se filmou Anna Magnani, BELÍSSIMA, no mais belo cinema de Luchino Visconti, isso em 1951.

Por lá, passaram Sophia Loren, Akira Kurosawa, Claudia Cardinale, Leonardo DiCapro, Jane Fonda (lembram de BARBARELLA?), Sergio Leone e Clint Eastwood (ambos POR UM PUNHADO DE DÓLARES, 1964) e, claro Federico Fellini e todos os seus filmes.

De lá, partiram Audrey Hepburn & Gregory Peck, A PRINCESA E O PLEBEU numa vespa, pelo trânsito de Roma, as escadarias espanholas, rumo à Bocca della Verità, que logo se tornou uma lenda. E justamente por causa desse filme!

 A FÁBRICA DOS SONHADORES

Eu, como cinéfilo desde quando me conheço por gente, fui à Roma justamente para visitar  Cinecittà. Da estação Termini do metrô, pela linha A, quase 20 minutos, 14 estações depois, desembarquei na Estação Cinecittà logo pela manhã. Lá perto existe um Parque, chama-se “Parco degli Acquedotti” e, pela manhã, é possível tirar excelentes fotos. O Estúdio, em si, abre às 10h00 (inclusive às Ssgundas, o que o coloca como alternativa de roteiro) e se divide em 4 espaços museológicos: O Museu Fellini, o Museu do Cinema, o Caffè di Cinecittà e a Visita Guiada pelos Estúdios (com guias em Inglês e Italiano).

Logo na entrada, semienterrada na grama, a estátua de Vênus construída para o CASANOVA, de Fellini nos recebe. Esse é o cartão de visita para um universo que somente o cinema é capaz de criar.

No prédio de Fellini, um gigantesco cavalo de brinquedo nos convida para um pouco de história. Há fotos e vídeos de arquivo sobre a fundação e construção do estúdio, também uma sala dedicada ao cineasta italiano, alguns desenhos e figurinos, lembranças de seus filmes e um leve afago à sua esposa, atriz e companheira, Giulietta Masina. Perto desse edifício, existe um ateliê de Figurinos e adereços.

No segundo Prédio, o Museu do Cinema submerge o visitante numa experiência táctil pela sétima arte. E o faz na cacofonia de vozes, música e filmes similar ao que se vê, hoje, nas famosas exposições do Museu da Imagem e Som (em São Paulo) e na Cinemateca de Paris.

Por seus corredores, se vê o cinema italiano desde suas origens, um capítulo especial aos filmes de sandália e espada, o gênero político, o Faroeste Spaghetti, as tragicomédias!

Depois, todo o processo de produção de um filme, incluindo roteiro, figurinos e cenários, para, enfim, nos deparamos no interior de um submarino. Ao final, saindo do prédio, a luz chega a nos cegar, como se estivéssemos literalmente acordando de um sonho. E é ali que está o Caffè di Cinecittà, talvez para um lanche e souvenires. Vários livros sobre cinema, biografias, processos e afins. Há muitos mimos e tentações. Difícil resistir.

Lá, também, é o ponto de encontro da visita guiada. Que começa diante do mítico estúdio n.5, donde Fellini escreveu sua história – e lá foi velado. Em seguida, a viagem prossegue por cenários inusitados, a cidade aonde Jesus cresceu, o foro romano de ROMA, um vilarejo na Toscana, casinhas perdidas de algum faroeste esquecido (na verdade, o cenário de GANGUES DE NOVA YORK, de Martin Scorsese). Tudo falso, naturalmente, feito de compensado e papelão, mas, no entanto, extremamente real.

E, talvez, essa seja a verdadeira mágica… visitando a Cinecittà, por cerca de 2 ou 3 horas, voltei à aurora de minha infância, me tornei Totò em CINEMA PARADISO, fascinado pelas memorias, as histórias, a luz e a nostalgia, tantas imagens e lembranças, meus olhos se arregalaram, o coração foi a mil, uma lágrima corou minha face.

“Alfredo, é belíssimo. Bravo, Alfredo!”. Sim, eu sei, é bobo, mas o cinema é capaz disso.”

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Sobre o autor

Ana Grassi é especialista em língua, cultura e turismo para a Itália. Fundadora, autora e editora do blog ITALIAna, trabalha como travel designer há 10 anos; isso quer dizer que realiza o sonho dos viajantes que querem conhecer a Itália, com um roteiro personalizado e exclusivo!

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