Ser amiga de uma blogueria e travel designer especializada em Itália, é ter a oportunidade de conhecer lugares fora do comum!

E é sobre o roteiro especial dos “Caravaggios” escondidos em Roma, que ganhei da Ana Grassi, que vou falar nesse post.

Antes de começar minha divagação sobre arte e Caravaggio, é bom esclarecer que não sou uma entendida, nem estudiosa. Mas apenas, uma simples mortal que aprendeu muito cedo a apreciar o que é belo e o que aquece meu coração.

Então, não esperem informações muito detalhadas ou precisas, mas um relato de momentos mágicos que somente a Itália pode proporcionar.

Em busca do Caravaggio em Roma

Existem muitos Caravaggios em Roma, os mais famosos estão nos Museus Vaticanos, na Galleria Borghese, Galleria Doria Pamphili, Museus Capitolinos, entre outros.

Mas, a Ana selecionou 3 lugares especiais para mim (todos grátis), com um percurso muito gostoso para ser feito à pé, começando pela Igreja de Santa Maria del Popolo, passando pela Igreja de Santo Agostinho e terminando na Igreja de São Luiz dos Franceses e vou  compartilhar com vocês esse percurso.

Piazza del Popolo

Meu passeio começou na Piazza Del Popolo que, para mim, foi apenas uma das surpresas do dia, pois mesmo tendo estado em Roma mais de 20 vezes nos últimos 7 anos, somente com a Ana eu descobri que ainda não conhecia a cidade.

A praça é enorme, fica aos pés da linda Villa Borghese e do Parque do Pincio (para quem gosta de esculturas, Villa Borghese é “O” lugar), e é composta por uma fonte central belíssima com um obelisco egípcio de  XIII a.C., trazido para Roma a pedido do Imperador Augusto no século X a.C.

De cada lado da praça existem fontes, uma dedicada à Deusa Minerva e outra dedicada a Poseidon. Além das fontes, existem três igrejas ao redor da praça: Santa Maria del Popolo, Santa Maria in Montesanto e Santa Maria dei Miracoli.

Basílica de Santa Maria del Popolo – os dois primeiros Caravaggio

Em um dos quatro cantos da monumental Piazza del Popolo (o que em Roma é algo comum; não existe nada “não monumental” nessa cidade ), fica a Igreja de Santa Maria del Popolo. E dentro dela, encontro os primeiros “Caravaggios” do dia: A Crucificação de São Pedro e A Conversão de São Paulo.

As telas estão na última capela, na lateral direita da igreja (chamada Capella Cerasi), bem ao lado do altar principal. E foram desenvolvidas pelo artista, para serem colocadas exatamente no lugar onde se encontram atualmente, e obrigar o espectador a observá-las de lado, para se ter uma melhor visão da sua profundidade.

Crucificação de São Pedro

Aqui, Caravaggio foge do convencional, apresentando os personagens despidos de características “heróicas” e, ao invés de colocar soldados romanos amarrando São Pedro à sua cruz, representa os algozes do mártir como simples operários.

Os movimentos daqueles que amarram São Pedro à cruz, demonstram que eles estão ali apenas obedecendo ordens de seus superiores, sem entender bem a motivação de tudo aquilo.

Os detalhes são impressionantes, desde o olhar melancólico de São Pedro, em uma mistura de sofrimento pelo que está passando e êxtase por saber que, ao final, encontrará o Reino dos céus, até os pés descalços e sujos de seus malfeitores.

Nessa obra, contrariando a tradição da pintura de Merisi*, onde normalmente a luz se concentra no personagem principal, a luz abraça todos os personagens e serve de elo de ligação entre todos os indivíduos presentes na tela, como se representasse uma espécie de perdão àqueles que martirizam São Pedro . É realmente, deslumbrante!

Conversão de São Paulo

Nessa tela, o artista representa com detalhes e fidelidade a passagem bblica dos Atos dos Apóstolos onde o soldado Saulo (ou Paulo) de Tarso, que perseguia os cristãos, foi envolto por uma forte luz Divina, que o fez cair de seu cavalo e ficar cego.

Cegado pela luz de Deus, Saulo ouviu o chamado de Cristo, para que deixasse de perseguir os cristãos e então se converteu.

Mais uma vez, o movimento é o ponto forte da obra. Seja no cavalo que é o objeto principal da tela (e motivo de muitas discussões, já que para a Igreja, o Santo deveria ter sido o foco), seja no apóstolo Paulo, que mesmo caído e já cego, tem uma expressão serena, com os braços levantados em sinal de aceitação e conversão.

Também aqui, Caravaggio inundou a obra de luz, simbolizando a forte presença divina. Observar essas telas é como ver uma poesia em forma de quadro.

No dia em que visitei a Basílica, tive a sorte de presenciar uma cantora lírica cantando musicas lindas que, o que tornou o momento ainda mais especial.

Via di Ripetta

Terminada a visita em Santa Maria del Popolo, minha próxima parada seria em Sant’Agostino. Para isso, a Ana me aconselhou a pegar a Via di Ripetta (atravessando  a praça) e seguir um percurso de 15 minutos à pé até o meu destino.

E…que delícia! Uma rua cheia de pequenos e acolhedores restaurantes e lojas. E, no caminho, descobri a casa de Goethe em Roma . Pensei: “Ai meu Deus!….vou parar…mas acabei deixando para outro dia. Mesmo assim, fiz uma paradinha para a foto! E vou voltar lá!. Mal sabia eu que pararia muitas outras vezes no percurso.

Sim, porque caminhando por essa rua, passei em frente ao lindo prédio da Academia de Belas Artes de Roma. Depois, pelo Museu dell’Ara Pacis, pelo Mausoleo de Augusto, pelo Largo San Rocco e a linda Chiesa di San Rocco.

Em cada lugar fiz uma breve parada, uma foto e senti aumentar em meu coração uma vontade enorme de ter 12 vidas para poder conhecer cada pedacinho da Cidade Eterna.

Igreja de Santo Agostinho

Depois da caminhada (que deveria ter levado 15 minutos, mas devido às minhas infinitas paradas de deslumbramento, levou mais de 1 hora), em uma pequena praça, quase escondida e meio acanhada, encontrei a Igreja de Santo Agostinho. E lá dentro, pude observar de perto a obra mais linda do dia: a Madonna di Loreto (Ou Nossa Senhora dos Peregrinos).

Essa tela realmente, ganhou meu coração, passei horas admirando cada detalhe e a força das cores, dos rostos. Na minha opinião, singelo não é uma palavra que define Caravaggio, mas nesse caso, se aplica sim.

A tela representa a aparição de Nossa Senhora para dois viajantes cansados. É uma tela cheia de particularidades.

A primeira é a representação de Nossa Senhora de modo quase popular. Contrariando a representação convencional da Madonna em um trono, aqui ela é uma pessoa simples, do povo.

O ar divino se revela pela sutil aureola, pelo menino Jesus que impõe sua mãozinha sobre os viajantes e nos pés da Santa que quase tocam o chão, simbolizando que ela desceu dos céus para abençoar os viajantes.

Também a postura dos peregrinos, ajoelhados aos pés de Nossa Senhora, em sinal de respeito e com olhar de contemplação, denotam o caráter divino daquela mulher.

Além disso, outra coisa impressionante é o realismo com que todos presentes na tela são representados. As roupas surradas dos viajantes e os pés sujos e inchados nos fazem imaginar o quanto caminharam para chegar ali.

Uma curiosidade é que diz-se que o rosto de Nossa Senhora teve como modelo uma prostituta chamada Lena,  amante que tem seu rosto figurado em outras obras do artista. Diz-se que Lena era amante de Merisi e  que teria sido o pivô da briga na qual ele acabou matando um homem (mas essa é apenas uma das tantas versões dessa história).

Já os viajantes são pessoas reais, bêbados, mendigos. De fato, Caravaggio costumava representar pessoas reais, de origem humilde como santos e personagens de seus quadros.

Piazza Navona e o restaurante de Julia Roberts

Depois de todo esse deleite visual, e antes da última parada na minha busca por Caravaggio em Roma, resolvi seguir a dica da Ana e parar no Restaurante Santa Lucia, ao lado da Piazza Navona (outra praça espetacular de Roma, que só descobri nessa viagem).

A particularidade desse restaurante é que ele foi cenário do filme Comer, Rezar, Amar. Para quem assistiu, foi nele que foi gravada a cena em que Julia Roberts faz o pedido do menu em italiano, para todos que estão à mesa.

A dica é sentar mesmo na parte externa, que é linda, um clima super romântico, atendimento ótimo e comida deliciosa (por favor, peça o filet mignon com trufas!). Não poderia ter melhor lugar para almoçar, depois de visitar tantas igrejas.

Igreja de San Luigi dei Francesi

Após almoçar e caminhar admirando a linda e suntuosa Piazza Navona, me encaminhei para a última etapa da minha busca, São Luiz dos Franceses.

Uma igrejinha encantadora, que é a igreja nacional dos franceses em Roma desde 1589 – missas e confissões são realizadas em francês . O teto merece especial atenção, pois, é simplesmente lindo!

Aqui encontrei as últimas 3 obras do meu roteiro ‘caravaggiano’:

A vocação de São Matheus

O momento em que Jesus convida Matheus, um cobrador de impostos, para se tornar seu discípulo é representado por Caravaggio em modo bastante particular.

Na tela, enquanto Cristo à esquerda, ao lado de São Pedro e sob uma luz externa, considerada a luz de Deus, aponta para Matheus, este por sua vez olha para Jesus com espanto e aponta para si mesmo, como quem tenta confirmar se, realmente, é ele que está sendo convidado.

Ao redor de Matheus, uma mesa com moedas, representando sua profissão e  seus assistentes, contando o dinheiro enquanto o próprio Cristo se faz presente. Uma detalhe interessante da tela é que Jesus e São Pedro, são representados com vestes de seu tempo, enquanto Matheus e seus assistentes, usam roupas elegantes típicas de 1600, fazendo com que a cena se torne mais próxima da realidade do artista.

São Matheus e o anjo

Nessa obra São Matheus é o protagonista central e absoluto, precedido do anjo que lhe traz uma mensagem celestial. O santo é representado como se estivesse apressado para anotar a mensagem trazida pelo anjo. A sensação de movimento é trazida pela banqueta sobre a qual está são Matheus e pelo anjo que, envolto por um manto branco, traz luminosidade e leveza ao quadro.

O Martirio de São Matheus

O quadro representa o momento em que, segundo a lenda, São Matheus foi assassinado enquanto celebrava uma missa. O motivo do homicídio seria o fato de Matheus ter feito da filha do Rei da Etiópia e freira, sua concubina. A tela é uma das mais complexas da obra de Caravaggio e representa o ápice de sua maturidade artística.

O jogo de claro e escuro nos instiga a descobrir os personagens, com destaque especial para a expressão de raiva do assassino e para o anjo que oferece a palma do martírio para São Matheus (até hoje não se sabe se o mártir tem os braços estendidos para alcançar a palma ou para se defender de seu algoz).

Os demais personagens são pessoas que assistiam a missa e, suas expressões minuciosamente representadas, demonstram surpresa, pânico, medo. E, em uma observação mais detalhada, bem ao fundo da tela, em linha com o assassino de São Matheus, um dos espectadores é o próprio Caravaggio, em um autorretrato impecável e melancólico.

Depois dessa viagem pela obra de Caravaggio me restou tomar um enorme sorvete na Piazza Navona, observando os artistas de rua e guardando na memória casa detalhe desse dia especial!

Na prática

No mapa abaixo você encontra o percurso que eu fiz e a indicação de todos os locais citados neste post. O passeio todo dura aproximadamente 4 horas, sem contar o almoço!

Bom passeio!

*Algumas fotos são de Victor Carnevale, fotógrafo oficial do blog ITALIAna.

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Sobre o autor

"Advogada hà mais de 10 anos, apaixonada pelo direito e pela Itália, trabalha com reconhecimento de cidadania italiana, obtenção de vistos e validação de diplomas no Brasil e na Itália. Vive em Milão desde 2009 e acompanha seus clientes durante o processo de cidadania italiana, atuando como facilitadora durante sua adaptação na Itália. Colaboradora feliz e orgulhosa do Blog ITALIAna!"

3 Comentários

  1. Renata Garboci on

    Vannessa esse passeio foi maravilhoso tive a oportunidade de fazer com você aqui do Brasil né kkkk conversamos rimos e nos emocionamos diante da genialidade desse mestre do barroco. Lindo texto e em breve refazer esse passeio com você só que agora pessoalmente. Bjs linda

  2. LEANDRO OLIVEIRA DA SILVA on

    simplesmente divino e instigante para inclusão na minha próxima viagem à Roma

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